UMA TEMPORADA DE FUTEBOL PARA TODOS OS GOSTOS

Por Rafael Oliveira

Na última semana, o jornalista Jonathan Wilson* destacou, em sua coluna no Guardian, como Leicester e Atlético de Madrid são exemplos de sucesso no futebol atual utilizando estratégias que já foram tidas como ultrapassadas. A ideia era mostrar como o futebol é cíclico em muitos aspectos, permitindo reaproveitar detalhes que passam anos fora dos planos.

A temporada 2015/16 foi recheada de grandes histórias. O feito do Leicester foi indiscutivelmente o maior título conquistado. O do Ajax, certamente o maior título perdido. A “era Simeone” pode ser coroada com a Champions League se o Atlético superar o último obstáculo da sequência Barcelona-Bayern-Real, para tirar qualquer dúvida sobre a força da equipe.

E não para por aí. O impacto da chegada de Klopp ao Liverpool e suas duas finais de copas, a surpreendente caminhada da até então incógnita Zidane no Real Madrid, a terceira final europeia consecutiva do Sevilla, a saga do Rostov na briga pelo título russo, o retorno do Rangers na Escócia... Grandes histórias e uma enorme variedade de estilos de jogo marcam uma temporada em que a forma apresentada nem sempre seguiu um modelo, mas os roteiros não ficaram devendo em emoção e imprevisibilidade.

Como destaca Jonathan Wilson, é o momento de reforçar como a "filosofia BarçAjax" não precisa ser o único caminho. Claro que os títulos nacionais consecutivos de Barcelona e Bayern impedem qualquer visão apocalíptica e exagerada, mas as eliminações de ambos para o pragmático Atlético são representativas. Assim como as médias de posse de bola inferiores a 50% de Leicester e Rostov não podem ser ignoradas.

Outra constatação que vai na contramão de algumas "verdades absolutas" de anos anteriores é a importância dos camisas '9'. Harry Kane, Lewandowski, Luís Suárez e Higuaín. Grandes centroavantes e artilheiros das quatro principais ligas europeias. Dois deles fundamentais em times com DNA capaz de prescindir de tal característica em outros momentos.

É possível jogar com "falso 9" e obter sucesso. E também é possível acrescentar um 9 à engrenagem e ficar ainda mais completo. É o que mostra Suárez com seus 40 gols e 16 assistências no Campeonato Espanhol. Líder nos dois quesitos, participou diretamente de mais gols que 16 clubes de La Liga na temporada. Na Alemanha, um time de Guardiola viu seu camisa 9 se tornar o primeiro jogador desde 1977 a alcançar a marca de 30 gols em uma edição da Bundesliga. Lewandowski é o primeiro estrangeiro a conseguir o feito na história.

Enquanto até mesmo as principais referências sofrem adaptações e aperfeiçoamentos, outras boas novidades surgem fora dos holofotes dos títulos. Ao terminar atrás do Arsenal pelo 21º ano seguido, o sentimento do torcedor do Tottenham é de que tudo pode ser jogado no lixo, mas o time apresentou o melhor futebol da Inglaterra em 2015/16. Pochettino transformou, renovou e, apesar do vexame nas rodadas finais, a temporada teve saldo positivo.

Outro trabalho de enorme destaque é o de Thomas Tuchel no Borussia Dortmund. A missão de substituir Jürgen Klopp não era fácil, mas, além de novas ideias, a velocidade no desenvolvimento da proposta gera expectativa ainda maior para 2016/17. Será capaz de competir em regularidade com o Bayern de Carlo Ancelotti? O tetracampeonato alemão pode passar a sensação de falta de adversário para o clube de Munique, mas o Borussia terminou 2015/16 com uma pontuação que seria suficiente para vencer a Bundesliga em dez das últimas quinze temporadas.

Na Itália, Higuaín chegou aos 36 gols e quebrou o antigo recorde de Gunnar Nordahl como maior goleador de uma edição de Serie A. Nem a incrível marca do argentino foi capaz de conduzir o Napoli ao título, mas a mudança de estilo com a chegada de Maurizio Sarri também foi notável. De um time mais reativo com Rafa Benítez para uma equipe mais capaz de propor jogo. Só não superou outra importante história: a da reconstrução da Juventus após perder Pirlo, Vidal e Tévez. Processo que levou algumas rodadas, mas não impediu outro capítulo da hegemonia nacional. Adversário importante na reta final, a Roma termina com melhor ataque e com o renascimento de um Totti dado como aposentado. Transformação com dedo de Luciano Spalletti, que conquistou 46 pontos dos 57 possíveis desde que chegou em janeiro.

Em Portugal, o ponto positivo foi o ressurgimento do Sporting como real candidato. Méritos para outro treinador: Jorge Jesus. A polêmica saída de um rival para o outro de Lisboa deu resultado e gerou a maior pontuação da história do Sporting no campeonato. Só não foi suficiente para bater o Benfica de Jonas, mas projetou jogadores como João Mário, meio-campista talvez ofuscado apenas pela revelação Renato Sanches, já negociado do Benfica para o Bayern.

Borussia Dortmund, Tottenham, Napoli, Roma, Sporting... Em comum, não só o fato de terem sido superados em seus campeonatos nacionais, mas também a certeza de que são times que despertam a curiosidade para a sequência de trabalho de seus treinadores. Porque Atlético e Leicester mostram como o sucesso pode vir de diferentes maneiras, mas é fundamental não perder de vista o reconhecimento de que boas propostas e bom futebol não precisam ficar vinculados aos títulos conquistados. Como na avaliação final sobre o trabalho de Guardiola sem a Champions, há o sentimento de decepção, mas que não transforma o todo em fracasso.

*Jonathan Wilson é o autor do livro "A pirâmide invertida", sobre a evolução tática no futebol desde os seus primórdios, que será lançado pela Editora Grande Área dentro dos próximos meses